sexta-feira, outubro 30, 2026
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Nordeste além dos estereótipos: a região que o Brasil ainda precisa conhecer

Da tecnologia à energia renovável, da agricultura moderna ao turismo internacional, o Nordeste é muito mais do que a imagem de seca e pobreza repetida durante décadas.

Existe uma imagem do Nordeste que parece ter sido congelada no tempo. Para muita gente que vive em outras regiões do Brasil, a palavra Nordeste ainda remete automaticamente à seca, à pobreza, às casas de taipa, à terra rachada e ao sofrimento. É como se uma região formada por nove estados, com milhões de habitantes, pudesse ser resumida a um único cenário: o sertão castigado pela estiagem.

Essa visão não surgiu por acaso. Durante décadas, parte da produção audiovisual brasileira retratou o Nordeste quase sempre a partir da miséria, da seca e das dificuldades enfrentadas pela população sertaneja. Essas questões fazem parte da história e da realidade de muitos municípios, mas o problema começa quando são apresentadas como se fossem a única realidade possível da região.

A seca existe. A pobreza existe. A desigualdade social também existe. Negar esses problemas seria fechar os olhos para desafios que precisam ser enfrentados. Mas transformar essas características em uma definição permanente do Nordeste é reproduzir uma visão limitada, injusta e distante da realidade.

O Nordeste não é apenas aquilo que aparece em determinadas novelas.

Um estereótipo que também existe dentro do próprio Nordeste

Talvez um dos aspectos mais interessantes dessa discussão seja perceber que essa visão distorcida não está presente apenas entre pessoas que vivem no Sul, Sudeste ou Centro-Oeste. Ela também pode ser encontrada dentro do próprio Nordeste.

Em grandes capitais, por exemplo, há pessoas que conhecem pouco ou quase nada da realidade do interior. Muitas vezes, quem vive em áreas urbanas mais desenvolvidas acaba reproduzindo uma visão simplificada sobre o sertão, como se os municípios do interior fossem todos iguais, parados no tempo e marcados exclusivamente pela pobreza.

O contrário também acontece: pessoas de outras regiões do país que nunca visitaram o interior nordestino formam suas opiniões a partir de imagens repetidas na televisão, em filmes e até em conteúdos publicados nas redes sociais.

Assim, o estereótipo vai sendo reproduzido de geração em geração. E o mais preocupante é quando a própria população passa a acreditar que aquela representação limitada corresponde à totalidade da região.

O sertão não é um cenário de novela. É um território vivo, com cidades, comércio, universidades, escolas, profissionais qualificados, empreendedores, produção agrícola, tecnologia, cultura e pessoas que trabalham diariamente para construir novas oportunidades.

Um Nordeste que produz tecnologia, inovação e desenvolvimento

Enquanto parte do imaginário popular ainda associa o Nordeste exclusivamente à pobreza, a região abriga importantes centros de inovação e tecnologia.

Um exemplo está no Recife, em Pernambuco. O Porto Digital, localizado no centro histórico da capital, tornou-se um dos principais ambientes de inovação da América Latina. O distrito reúne centenas de empresas, milhares de profissionais e negócios que movimentam bilhões de reais. São empresas de tecnologia, centros de pesquisa, startups e profissionais que desenvolvem soluções para diferentes mercados.

Isso também é Nordeste: inteligência, pesquisa, desenvolvimento de software, inteligência artificial, empreendedorismo e inovação.

E não é um caso isolado. Universidades, institutos federais e centros de pesquisa espalhados pelos nove estados contribuem para a formação de profissionais e para o desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro.

O Porto Digital está instalado no Bairro do Recife e já expandiu para os bairros de Santo Antônio, São José e Santo Amaro, totalizando uma área de 1,7 quilômetro quadrado na capital pernambucana — Foto: Divulgação

O Nordeste também movimenta a energia do Brasil

Outro exemplo que contraria a imagem de uma região atrasada está na produção de energia renovável.

O Nordeste ocupa posição de destaque nacional na geração eólica e solar. Em 2025, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), a energia eólica representou 51,9% da geração elétrica da região, enquanto a solar respondeu por 18,8%. Juntas, essas duas fontes tiveram participação superior a 70% na matriz de geração regional apresentada pela entidade.

São parques eólicos e solares que movimentam investimentos, geram empregos e colocam o Nordeste no centro de uma transformação energética que interessa a todo o país.

É importante reconhecer que uma região frequentemente retratada como símbolo de escassez também é protagonista de uma das áreas mais importantes para o futuro energético do mundo.

Agricultura moderna em pleno semiárido

Outro retrato pouco conhecido por quem não acompanha a realidade nordestina está no Vale do São Francisco, especialmente entre Pernambuco e Bahia.

Em uma região de clima semiárido, a agricultura irrigada transformou a economia de diversos municípios. Petrolina, Juazeiro e cidades vizinhas se destacam na produção de frutas, como manga e uva, abastecendo mercados nacionais e internacionais.

Os projetos públicos de irrigação administrados pela Codevasf produziram, em 2024, milhões de toneladas de produtos agrícolas, movimentando bilhões de reais e gerando centenas de milhares de empregos diretos, indiretos e induzidos.

É uma realidade que demonstra como conhecimento, tecnologia, infraestrutura e investimento podem transformar as condições de produção até mesmo em áreas marcadas por pouca chuva.

O semiárido não é sinônimo de incapacidade de produzir. É um território com desafios próprios, mas também com enorme potencial.

Turismo, grandes hotéis e destinos internacionais

O Nordeste também é um dos grandes destinos turísticos do Brasil. Suas praias, paisagens naturais, patrimônio histórico, gastronomia e manifestações culturais atraem visitantes de diferentes partes do país e do mundo.

A região conta com grandes redes hoteleiras, resorts, pousadas sofisticadas, aeroportos internacionais, centros de convenções e uma estrutura turística que movimenta a economia e gera milhares de empregos.

De acordo com levantamento divulgado pela Sudene, o turismo nordestino alcançou 433,3 mil empregos formais em 2024, o maior número dos últimos seis anos. O setor representou 9,8% do Produto Interno Bruto regional. No mesmo ano, os aeroportos nordestinos receberam 337 mil visitantes internacionais, um crescimento de 36,7% em relação a 2023.

E o turismo não se resume ao litoral. O interior também possui destinos históricos, religiosos, culturais e ecológicos que merecem ser conhecidos. Há cidades serranas, sítios arqueológicos, parques naturais, festas tradicionais e experiências que revelam a diversidade da região.

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O Nordeste é diverso demais para caber em um único cenário

É preciso compreender que o Nordeste não é uma realidade única.

A região reúne litoral, agreste, sertão, zonas de mata, grandes metrópoles, cidades médias e pequenos municípios. Cada território tem suas características, seus desafios, sua economia e sua cultura.

Recife, Salvador, Fortaleza, João Pessoa, Natal, Maceió, Aracaju, Teresina e São Luís possuem dinâmicas urbanas próprias. Ao mesmo tempo, cidades do interior também crescem, recebem investimentos, desenvolvem atividades econômicas e constroem suas próprias histórias.

Aeroporto de Recife e Metro de Fortaleza

Há indústrias, portos, centros comerciais, universidades, hospitais modernos, empresas de tecnologia, agricultura mecanizada e empreendimentos de diferentes portes. Tudo isso faz parte do Nordeste contemporâneo.

E não se trata de comparar regiões ou afirmar que o Nordeste é melhor ou pior do que qualquer outra parte do Brasil. Trata-se simplesmente de reconhecer que a região merece ser retratada com a mesma complexidade com que se retratam as demais.

Campina Grande foto Divulgação Sonhagro

O problema não é mostrar a pobreza. É mostrar somente a pobreza.

A televisão, o cinema e os meios de comunicação têm um papel importante na construção do imaginário coletivo. Quando uma região é apresentada repetidamente sob o mesmo enquadramento, o público pode acabar confundindo uma parte da realidade com o todo.

Cena novela da TV Globo, “No Rancho Fundo”

Mostrar a seca é necessário. Mostrar a pobreza é necessário. Contar histórias de pessoas que enfrentam dificuldades também é necessário. Mas por que não mostrar, com a mesma frequência, o pesquisador nordestino, a empresária do interior, o engenheiro que trabalha com energia renovável, o produtor rural que exporta frutas, o jovem que desenvolve tecnologia ou o profissional que constrói uma carreira em sua própria cidade?

Por que o sertanejo precisa aparecer quase sempre como alguém condenado ao sofrimento? Por que o interior nordestino tantas vezes é apresentado como se estivesse décadas atrás do restante do país?

A cultura nordestina não precisa ser escondida nem modificada para agradar a quem está de fora. O sotaque, os costumes, as festas, a culinária, a música e as tradições são parte da identidade de um povo. O problema não está em representar essas características, mas em transformá-las em caricaturas.

O Nordeste não precisa deixar de ser Nordeste para ser reconhecido como moderno.

Conhecer antes de julgar

Talvez a melhor maneira de combater o preconceito seja conhecer a região para além das imagens que foram construídas sobre ela.

Viajar pelo interior, conhecer suas cidades, conversar com seus moradores, visitar suas universidades, empresas, áreas de produção, parques de energia e destinos turísticos. Perceber que por trás de cada município existe uma realidade própria, com pessoas que estudam, trabalham, empreendem, inovam e sonham.

O Nordeste tem problemas, assim como todas as regiões brasileiras. Mas também tem riqueza, conhecimento, desenvolvimento, oportunidades e um enorme potencial.

A região não pode continuar sendo resumida à imagem de um passado de sofrimento. O sertão não é apenas seca. O nordestino não é personagem de novela. E o Nordeste não é uma região que parou no tempo.

O Nordeste é muito maior do que o estereótipo que construíram sobre ele. Talvez o que esteja faltando não seja o Nordeste mostrar quem é, mas o Brasil aprender a enxergá-lo por inteiro.

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