Anunciar as datas de uma festa com antecedência é algo normal. O que chama atenção é quando esse anúncio passa a impressão de que quem divulga primeiro teria algum tipo de prioridade sobre o calendário.
Foi exatamente essa sensação que ficou após o prefeito de Várzea, Paulinho Nóbrega, subir ao palco do João Pedro 2026 para anunciar que a edição de 2027 acontecerá nos dias 8, 9, 10 e 11 de julho. Durante o pronunciamento, o gestor disse: “Anote ai na sua agenda”, divulgando as datas com o tom de que que “depois ninguém diga que não sabia”.
Na avaliação deste blog, esse tipo de postura lembra mais uma disputa de recreio do que a atitude que se espera de gestores públicos. Não porque anunciar a data seja errado, mas porque passa a impressão de que quem anuncia primeiro teria algum direito sobre um fim de semana que pertence ao calendário e não a uma cidade.
É importante reconhecer um fato.
Paulinho está correto quando afirma que, tradicionalmente, o João Pedro de Várzea acontecia no segundo fim de semana de julho. Essa sempre foi uma das marcas da festa. Mas é de conhecimento de todos que Várzea tradicionalmente também sempre encerrou as festividades juninas na região.
Existe outro fato que também precisa ser lembrado.
Anos atrás, quando as festas do Vale do Sabugi começaram a coincidir, os prefeitos da época decidiram fazer exatamente o contrário do que vemos hoje. Segundo Domiciano, de São José do Sabugi, Toninho, de Várzea, Umberto Jefferson, de São Mamede, e Zezé, de Santa Luzia, construíram um entendimento para criar o chamado Circuito do Forró.
A ideia era simples.
Cada cidade faria sua festa em um fim de semana diferente.
Assim, quem gostava de forró podia participar de todas as festas. Os comerciantes vendiam mais. Os ambulantes trabalhavam mais dias. Os hotéis recebiam mais visitantes. Os músicos tinham mais oportunidades. O dinheiro circulava por toda a região.
Todos ganhavam.
O próprio João Pedro de Várzea continuava sendo um dos grandes encerramentos das festividades juninas da região, mantendo sua identidade e sua tradição.
Esse modelo deu certo durante anos.
Foi somente depois que o acordo deixou de ser seguido que as festas voltaram a acontecer no mesmo período.
E é justamente aí que está a reflexão.
O que é mais importante?
Defender um calendário que fortaleça toda a economia do Vale do Sabugi ou insistir em uma disputa que obriga o público a escolher entre uma festa e outra?
Enquanto isso, o prefeito de São José do Sabugi, Emanuel Domiciano, adotou um discurso completamente diferente. Em entrevista à Rádio Vale FM, afirmou que não existe desavença entre as administrações, desejou sucesso ao João Pedro de Várzea e disse esperar que a festa fosse um grande evento para a população varzeense.
Uma postura que demonstra que é possível existir respeito institucional, mesmo quando há divergências.
Infelizmente, o clima nas redes sociais segue outro caminho. A cada anúncio, cresce a rivalidade entre moradores das duas cidades, incentivada por páginas, perfis e comentaristas que transformam um tema administrativo em uma disputa de torcida.
E quem perde com isso?
Perde o comerciante.
Perde o vendedor ambulante.
Perde quem trabalha com turismo.
Perdem os artistas.
Perde o público.
Perde toda a região.
No fim das contas, anunciar primeiro não torna ninguém dono de um fim de semana.
O calendário não pertence a Várzea.
Também não pertence a São José do Sabugi.
O calendário pertence ao povo, que merece ter a oportunidade de prestigiar as duas festas sem precisar escolher entre uma e outra.
Talvez esteja na hora de deixar a disputa de lado e retomar o diálogo.
Porque grandes líderes são lembrados não por vencerem uma queda de braço política, mas por tomarem decisões que beneficiam toda a região.
Essa, sim, seria uma tradição que valeria a pena preservar.


